
Seria totalmente errôneo passar a acreditar que, diante da abolição de antigos preceitos morais, estar-se-ia vivendo, tendo a si mesmo como referência última para a consciência diante das ações tomadas. As referências não existem para fazer funcionar a sociedade, mas simplesmente para que o ser humano possa ser “ser humano”. Não é ele que define a moral segundo a sua vontade diante de suas necessidades, anseios, tendências e desejos. Para Paul Valadier, filósofo jesuíta, é a moral que “define o ser humano”. E isso se torna um ponto preocupante, diante da transferência de referências que atualmente se vive.
É essa transferência de referências que caracteriza a chamada pós-modernidade, no que tange a consciência, pois se constitui uma nova cosmovisão que “afirma a descentralização e a dissolução dos universais – como Igreja, Deus, ética, verdade, conhecimento”. Já não há mais um “poder regulamentador ou um ponto de convergência, pois o critério não é o de justiça ou de autoridade, nem de verdade, mas de performatividade (desempenho)”. O que passa a ser importante é o saber técnico eficiente que traga lucratividade.
Mas atenta-se, diante disso, que a pessoa de hoje, com sua consciência liberada de seus compromissos tradicionais, não consegue constituir uma base reconhecida e incontestável, estando constantemente entregue a si mesma. Não possuindo seu antigo imperativo moral (como o iluminismo denominava), parece, vez ou outra, ter perdido a própria noção. Não se consegue mais distinguir entre o bem e o mal. “O sujeito, ou melhor, o eu se vê exposto, frágil, deprimido, porque seu tônus não está agora organizado, garantido por uma espécie de referência fixa, estável, segura”. Como conseqüências dessa nova sociedade observam-se: desintegração dos laços familiares, sistemas escolares mais voltados para a competividade do que para a aquisição de uma verdadeira cultura, criminalidade, o uso abusivo de antidepressivos, o uso de drogas, a liberalização sexual.
3 comentários:
Amei a imagem.
Quando escrevemos a ilustração que escolhemos é fundamental. Ela transmite os nossos sentimentos e também, eleva a importância do texto para o leitor.
Agora, eu vou lá, ler o conteúdo... é que quando vi as mãos, envelhecidas, sabidas, juntas e amadas, não pude deixar de expressar a admiração.
Aliás, os outros textos estão supimpa. E as imagens, magnificas.
Não é apenas incorreto crer estar vivendo tendo a si como referência absoluta, mas é também ingênuo. Só alguém ingênuo para acreditar ser tão senhor de si a ponto de não ser influenciado por valores exteriores. O homem não escapa do mundo em que vive.
Mas eu não vejo problema em não haver um “poder regulamentador ou um ponto de convergência”, ainda mais se esse poder está relacionado à religião (que o texto parece implicar, a crer pelos universais de “Igreja” e “Deus”). Em um mundo em que existe um Oriente Médio, quem precisa de uma religião ditando referências?
É claro que o relativismo extremo é pernicioso. O bem e o mal não são a mesma coisa—mas isso não justifica a centralização da decisão do que é bom e do que é mau.
Com relação ao critério ser o desempenho, não sei se é correto afirmar isso, mas tampouco acho incorreto. Mas, se esse é o critério, quem o definiu? Se não existe nenhum poder regulamentador, sou levado a crer que foi a própria sociedade. O que há de errado, então, em os próprios indivíduos da sociedade definirem o critério?
Concordo com o texto quando diz que o sujeito se vê exposto e frágil. Mas a que preço se pode proteger esse sujeito? Vale a pena impor referências? Não seria o caso de que estamos numa fase de transição, em que os indivíduos ainda não estão habituados a não haver um referencial?
Gostei do texto. Instigante.
Muito boa a reação. Farei alguns comentários em tempo oportuno. Muito Obrigado!
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