Assiste-se a uma desestruturação das consciências, mas também uma busca constante por novos referenciais que poderiam suprir a falta dos antigos. Faz-se isso transferindo esperanças, também messiânica e escatológica, para aquilo que traz “novos referenciais”, tentando assim regulamentar novamente a vida. Um exemplo é a biomedicina, na qual “há uma esperança messiânica e escatológica de um futuro sem males, da ausência de doenças, da superação da morte e da vida eterna”. Surge a idéia de uma nova verdade, realizou-se a secularização da secularização.Se os referenciais são conceitos que se tem por verdade e verdadeiro, os quais são ligados a consciência, certamente se torna útil analisar o surgimento de uma nova ética, ou uma corrente dela, a partir daquilo que vem constituir bases na nova maneira de viver.
Peter Singer: uma ética de novas referências
Peter Singer com certeza é um dos pensadores mais polêmicos no campo da ética na atualidade. Quem lê seus escritos, logo percebe a existência de uma busca por novas referências que possam constituir uma base reconhecida para normatizar, normalizar e colocar de maneira lógica a vida humana. Há uma tentativa de formular novos fundamentos à razão e, assim, à consciência, de modo que a pessoa possa, com uma nova referência, prestar contas diante de si mesma e perante o outro, por uma atitude tomada. Para tanto, será usado seu escrito “Ética Prática”.
De início, o índice do livro já chama a atenção. Encontram-se capítulos como: “O que há de errado em matar?”, “Tirar a vida: o embrião e o feto”, “Tirar a vida: os seres humanos”. Mesmo que não se tratará detalhadamente de tudo o que o autor aborda em seu livro, se fará uma busca da referência legitimadora de, por exemplo, tirar a vida de um ser humano.
Para Singer, ser humano não é sinônimo de pessoa. Ser humano é sinônimo da espécie homo sapiens, enquanto pessoa é o ser que possui consciência de si, autocontrole, senso de futuro e passado, capacidade de relacionar-se com os outros, preocupação, comunicação e curiosidade. “O embrião, o feto, a criança com profundas deficiências mentais e o próprio bebê recém nascido são, todos, membros inquestionáveis da espécie homo sapiens, mas nenhum deles é autoconsciente, nem possuem senso de futuro ou capacidade de se relacionar com outros”, e de forma alguma, são, portanto, pessoas. Segundo Singer, há seres da espécie humana que não são pessoas, assim como há pessoas que não são da espécie humana, por exemplo: orangotango, gorilas, chimpanzés, baleias, golfinhos, possivelmente também cachorros, gatos e até mesmo porcos.
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