quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O ser humano em busca de novas referências (parte 2)

Assiste-se a uma desestruturação das consciências, mas também uma busca constante por novos referenciais que poderiam suprir a falta dos antigos. Faz-se isso transferindo esperanças, também messiânica e escatológica, para aquilo que traz “novos referenciais”, tentando assim regulamentar novamente a vida. Um exemplo é a biomedicina, na qual “há uma esperança messiânica e escatológica de um futuro sem males, da ausência de doenças, da superação da morte e da vida eterna”. Surge a idéia de uma nova verdade, realizou-se a secularização da secularização.
Se os referenciais são conceitos que se tem por verdade e verdadeiro, os quais são ligados a consciência, certamente se torna útil analisar o surgimento de uma nova ética, ou uma corrente dela, a partir daquilo que vem constituir bases na nova maneira de viver.
Peter Singer: uma ética de novas referências
Peter Singer com certeza é um dos pensadores mais polêmicos no campo da ética na atualidade. Quem lê seus escritos, logo percebe a existência de uma busca por novas referências que possam constituir uma base reconhecida para normatizar, normalizar e colocar de maneira lógica a vida humana. Há uma tentativa de formular novos fundamentos à razão e, assim, à consciência, de modo que a pessoa possa, com uma nova referência, prestar contas diante de si mesma e perante o outro, por uma atitude tomada. Para tanto, será usado seu escrito “Ética Prática”.
De início, o índice do livro já chama a atenção. Encontram-se capítulos como: “O que há de errado em matar?”, “Tirar a vida: o embrião e o feto”, “Tirar a vida: os seres humanos”. Mesmo que não se tratará detalhadamente de tudo o que o autor aborda em seu livro, se fará uma busca da referência legitimadora de, por exemplo, tirar a vida de um ser humano.
Para Singer, ser humano não é sinônimo de pessoa. Ser humano é sinônimo da espécie homo sapiens, enquanto pessoa é o ser que possui consciência de si, autocontrole, senso de futuro e passado, capacidade de relacionar-se com os outros, preocupação, comunicação e curiosidade. “O embrião, o feto, a criança com profundas deficiências mentais e o próprio bebê recém nascido são, todos, membros inquestionáveis da espécie homo sapiens, mas nenhum deles é autoconsciente, nem possuem senso de futuro ou capacidade de se relacionar com outros”, e de forma alguma, são, portanto, pessoas. Segundo Singer, há seres da espécie humana que não são pessoas, assim como há pessoas que não são da espécie humana, por exemplo: orangotango, gorilas, chimpanzés, baleias, golfinhos, possivelmente também cachorros, gatos e até mesmo porcos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

O ser humano em busca de referências...



Seria totalmente errôneo passar a acreditar que, diante da abolição de antigos preceitos morais, estar-se-ia vivendo, tendo a si mesmo como referência última para a consciência diante das ações tomadas. As referências não existem para fazer funcionar a sociedade, mas simplesmente para que o ser humano possa ser “ser humano”. Não é ele que define a moral segundo a sua vontade diante de suas necessidades, anseios, tendências e desejos. Para Paul Valadier, filósofo jesuíta, é a moral que “define o ser humano”. E isso se torna um ponto preocupante, diante da transferência de referências que atualmente se vive.
É essa transferência de referências que caracteriza a chamada pós-modernidade, no que tange a consciência, pois se constitui uma nova cosmovisão que “afirma a descentralização e a dissolução dos universais – como Igreja, Deus, ética, verdade, conhecimento”. Já não há mais um “poder regulamentador ou um ponto de convergência, pois o critério não é o de justiça ou de autoridade, nem de verdade, mas de performatividade (desempenho)”. O que passa a ser importante é o saber técnico eficiente que traga lucratividade.
Mas atenta-se, diante disso, que a pessoa de hoje, com sua consciência liberada de seus compromissos tradicionais, não consegue constituir uma base reconhecida e incontestável, estando constantemente entregue a si mesma. Não possuindo seu antigo imperativo moral (como o iluminismo denominava), parece, vez ou outra, ter perdido a própria noção. Não se consegue mais distinguir entre o bem e o mal. “O sujeito, ou melhor, o eu se vê exposto, frágil, deprimido, porque seu tônus não está agora organizado, garantido por uma espécie de referência fixa, estável, segura”. Como conseqüências dessa nova sociedade observam-se: desintegração dos laços familiares, sistemas escolares mais voltados para a competividade do que para a aquisição de uma verdadeira cultura, criminalidade, o uso abusivo de antidepressivos, o uso de drogas, a liberalização sexual.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

A conduta humana na pós-modernidade (parte 2)



Com o desaparecimento do limite, o que constitui autoridade vem, simultaneamente, faltar. O lugar da autoridade sempre foi ao mesmo tempo o lugar de esconderijo da divindade e justamente o lugar de onde os mandamentos vinham regulamentar a vida. Atualmente cada um pode publicamente satisfazer todas as suas paixões e, além do mais, pedir que elas sejam socialmente reconhecidas, aceitas, e até legalizadas; um exemplo disso é a mudança de sexo. Toda a moral caiu por terra. A grande filosofia moral dos dias de hoje é que cada ser humano deveria encontrar em seu meio, algo para se satisfazer plenamente. Se assim não for, surge um escândalo, um déficit, um dolo, um dano. Assim, quando alguém expressa uma reivindicação qualquer, está legitimamente no direito de vê-la satisfeita. O desejo por si só já funciona como legitimador, e legítimo é que ele encontre a sua satisfação.
Ainda assim, o ser humano é encarado como aquele que está em busca de si mesmo, de auto-compreensão, alguém em busca de sua identidade. O diagnóstico é que a sociedade vive a reversão de padrões e valores, não conseguindo mais ter uma clara e nítida visão do que se é, e o que deve ser. Diante da imensa “prateleira” de possibilidades que existem e poderiam muito bem ser aproveitadas, homem e mulher sentem-se confusos, e, como alternativa, vivem muitas vezes de maneira mecânica. A busca por “autonomia” e uma total liberdade de antigos valores universais, enclausurou as pessoas num vácuo existencial. Tudo o que a luta pela autonomia desejou nos últimos anos, parece tê-la tirado diante da falta de parâmetros claros que possibilitam exercer essa autonomia.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A conduta humana na pós-modernidade...



Uma das maneiras mais perspicazes de falar sobre a consciência do ser humano é olhar para sua ação concreta no espaço em que este vive e convive. Muito se percebe principalmente quando se relaciona sua consciência com a sua ação autônoma. A autonomia como correlato do conceito de liberdade, se acredita ser uma das maiores conquistas da modernidade. Mas seus desdobramentos têm produzido efeitos sociais inquietantes, “em forma que se apresentam em novos ideais configurados em modo de vida em que não haveria limites para nada, em que poderia se gozar a qualquer preço”. É incontestável que se está hoje, diante de uma crise de referências. As transformações da sociedade em geral, subseqüentes à conjunção do desenvolvimento das tecno e biociências e o crescimento do liberalismo econômico, transfiguram-se em interrogativas diante das “certezas” que permeiam o experimentar a “vida”.
Existe um mal-estar na civilização. O que a modernidade definia como homo faber cedeu lugar ao “homem fabricado”, passando a existir novas pessoas num “admirável mundo novo”. Nesse novo mundo, “o progresso considerável é ter efetivamente considerado o fato de que o céu está vazio, tanto de Deus quanto de ideologias, de promessas, de referências, de prescrições”, sendo então, os próprios indivíduos, aqueles que têm que se determinar por si mesmos. Os limites de ontem são ultrapassados, considerados antiquados. Fica no passado o proibido, o impossível, o inimaginável.

Cultura apocalíptica


Umberto Eco surpreende nessas suas palavras avaliando a apocalítica (secularizada?) nos nossos dias...


Estamos vivendo (nem que seja da maneira desatenta a que fomos habituados pelos meios de comunicação de massa) os nossos terrores do fim; e poderíamos até mesmo dizer que o fazemos no espírito do bibamus, edamus, cras moriemus, celebrando o fim das ideologias e da solidariedade, na voragem de um consumismo irresponsável. Assim, cada um joga com o fantasma do Apocalipse, ao mesmo tempo em que o exorciza – quanto mais inconscientemente o teme, mais o exorciza e o projeta nas telas em forma de espetáculo cruento, esperando assim torná-lo irreal. Mas a força dos fantasmas está justamente em sua irrealidade.